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A atmosfera de Leave Her to Heaven lembra-nos as obsessões das pessoas habituadas a manipular todos à sua volta para conseguir o que querem. Geralmente estragam a vida aos que com eles convivem ou que caem na sua teia. Tal como no Sunset Boulevard, é a lógica da mosca e da aranha. Pensei em Sunset Boulevard pelas semelhanças da loucura do manipulador, pela ausência de vitalidade, de sentimentos, de afecto. Só que aqui a personagem, também escritor, salva-se no final, mas não sem passar um mau bocado.

 

O manipulador está geralmente numa posição de aparente poder. Digo aparente porque esse poder é alucinado, não é real. Mas o que mais surpreende é a ingenuidade dos que se deixam enredar na teia da manipulação emocional.

Personagens narcísicas que não gostam de ser contrariadas, que se julgam o centro do mundo, que desconfiam de tudo e todos, e que eliminam quem consideram um obstáculo, aqui de forma premeditada. E o obstáculo é qualquer pessoa que ocupe a atenção da pessoa-objecto da sua obsessão. E pior ainda se for alguém que seja querido pela pessoa-objecto da sua obsessão. 

A atmosfera do filme acompanha o tecer dessa teia. Quase a sentimos a formar-se à volta das personagens, da casa, do escritor. Os afectos familiares são afastados, uns de forma brusca outros de forma trágica, até ao isolamento de uma vida onde só cabem dois.

 

Quando alguém manipulador, logo incapaz de amar porque amar não é controlar e limitar, percebe ou pressente o amor genuíno em outros, o ódio que daí nasce é destruidor. Aqui trata-se de uma vingança que possa impedir a felicidade de outros. Se eu não te posso ter ninguém pode, é a lógica.

O que o manipulador não percebe é que não é uma questão de posse. Ama-se quem é livre de nos amar ou não. O amor surge naturalmente, de forma natural, familiar. Apoiam-se um ao outro, animam-se, inspiram-se.

 

A cena final é uma das minhas preferidas. Depois de todas as atribulações e sofrimento, o encontro no lago (adoro lagos e são sempre cinematográficos). Ele vem a remar um barquinho, ela espera-o ansiosa, no seu vestido branco, no pequeno cais de madeira. Abraçam-se. E vemos aquele céu sobre eles e sobre nós.

 

 

 

 

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